heads & tails

You’ve done good deeds,

But then again, all of us have.

If you believe there’s something out there,

I don’t think you’re getting where you want to go.

 

Do you think that what is waiting for you

Is everything that you could hope for?

 

You’ve been good to us some times;

To me most of the time,

But it’s what you’ve done to whom trusted you the most

That will throw the dice when the end comes.

 

Do you believe that what you’ve done

Gets you somewhere light and warm?

 

Because I don’t think so,

And as much as it hurts to know,

It’s not me who should worry

When it’s time for you to go.

Advertisements

um parágrafo sobre tamarindos

Sei que acordei pensando que não gosto de tamarindos. E que na verdade nunca provei tamarindos, nem sequer sei como são, mas sei que pensei do caminho de casa até o ponto de ônibus que não gosto de tamarindos, e que de alguma forma teria de escrever sobre isso. Porque os tamarindos não saíam da minha cabeça, de manhã, e voltam agora à noite, sem gosto e sem forma, e não há muito que eu possa fazer sobre os tamarindos que escrever sobre eles, ou não há muito o que eu possa fazer a não ser escrever, quando de cinco em cinco segundos a frase “não gosto de tamarindos” martela na minha cabeça. E os pobres dos tamarindos que nada me fizeram, e que nunca cruzaram meu caminho, e eu que não vou com a cara deles sendo que eu nunca VI a cara deles, e já acordei pensando que não gosto, acordei pensando “acordei pensando que não gosto de tamarindos”, e no fim Beckett escreveria muito mais sobre tamarindos, sem querer dizer nada, e eu não quero dizer nada, mas ainda assim ele o faria de forma muito melhor, porque é Beckett, e eu sou só alguém que acordou numa segunda-feira pensando “acordei pensando que não gosto de tamarindos” e achou que porque a frase martelava na cabeça deveria sentar para escrevê-la, escrever sobre ela, como quem aspira escrever, tipo ser escritor, mas no fim eu não sou nem aquele escritor que não escreve; no fim eu sou só aquele que pensa que não gosta de uma fruta quando nem provou nem viu nem SABE qual é a cara da fruta, que calhou de ser tamarindo. E na verdade é um insulto à literatura, um insulto a Beckett que eu o tenha trazido pra um texto sobre nada, mas um nada meu, de quem não escreve, de quem não é ninguém, de quem acordou pensando que não gosta não gosta não gosta e acha que bastava para sentar e escrever, e é só segunda-feira e já me dou por vencido, e o pior é que eu nem quero saber como é a cara de um tamarindo, e só o cheiro e o gosto que nem conheço já me dão enjoo, de tanto que pensei de manhã “não gosto de tamarindos, só sei que não gosto de tamarindos”, e foi o bastante para eu gastar meu tempo escrevendo e escrevendo só pra mim e com vergonha e no tédio, que também aparece em Beckett, e com isso acabo por insultá-lo de novo – insultar a Beckett –, e se alguém me vir agora vai só pensar que não sou nem aquele escritor que não escreve, e como assim nunca viu um tamarindo, e vai acender um cigarro e pensar que pode escrever muito mais com uma frase tão simples como um “acordei pensando que não gosto de tamarindos”, porque aquele que escreve e se chama escritor, e escreve mesmo, não é escritor que não escreve, e provavelmente sabe o que é um tamarindo e qual é a cara dele e pode olhar na cara de um tamarindo sem sentir enjoo, talvez até goste de tamarindos, e pode escrever mais e melhor sobre eles, e pode ESCREVER, e não precisa dos tamarindos para isso, e também não precisa ter transado com uma conhecida qualquer para sentar e escrever, ainda que não consiga nem olhar na cara dela como consegue e sei que consegue encarar tamarindos, e no fim ela nem vale uma palavra e veja bem, ela nem passa na cabeça, nem um “acordei pensando que não gosto dela”, porque na verdade depois do sexo e um cigarro dois cigarros chuva nem passou pela cabeça, ou passou e não importa, da mesma forma que não importa que eu não gosto de tamarindos e nunca nem olhei na cara deles, mas aí entra a questão que ele que escreve provou – não do tamarindo – e no fim deu na mesma, nem pra escrever serviu, na verdade talvez um tamarindo fosse mais interessante mesmo, e nem precisa olhar na cara dele, e quem era ela mesmo; só acordou, fumou, e eu aqui com tamarindos e um texto que na verdade não é sobre nada, e eu nem provei dos tamarindos pra saber que eu nunca mais quero pensar neles de novo.

Hiatus

Eu a conheci quando voltava de São Paulo. Na rodoviária. Eu estava pra subir no ônibus quando a vi na outra fila do ônibus que ia pra Santa Catarina. Com os braços cruzados e fones nos ouvidos, ela olhava pro chão. Eu estava numa outra fila, e acabou que o ônibus dela ia sair atrasado. Ela virou pra trás pra comentar com uma senhora o quanto aquilo era um saco, que não bastasse a viagem longa ainda tinha isso de atraso, que estava cansada, e a senhora concordava com a cabeça e a interrompia pra reclamar que era tudo um absurdo e dizer que tinha deixado os gatos com o ex-marido, mas que ia chegar e sabia que o ex-marido já teria saído, e deixado os gatos sem comida, e que o ex-marido era um velho incompetente. A moça só balançava a cabeça concordando, mas agora em vez de irritada ela só parecia com sono. Eu tenho certeza de que na verdade ela não tinha ouvido sequer uma palavra do que a senhora havia lhe dito, e que nos fones de ouvido tocava um rock pauleira pra combinar com todos os piercings que ela tinha nas orelhas. E por baixo da alça da regata tinha uma tatuagem também. Mas eu conheço o tipo, então no fim ela talvez estivesse escutando Britney Spears, o álbum de 2007, porque eu sei que a minha ex estaria, mas já não nos falamos há uns dois anos. E a moça da fila de trás não era minha ex. Eu não quero saber da minha ex.

A fila de trás meio que se dispersou, e o meu ônibus acabou que ia atrasar também. Reclamamos, todos na fila, e um senhor na minha frente já xingava a companhia e se preparava pra dizer que era um país de (insira um palavrão) e que ele não via a hora de se aposentar e ir embora de vez pra Lisboa ou pra Miami. Uma criança também começou a se irritar e a espernear no colo da mãe; eu só saí de perto, e a minha fila acabou se dispersando também.

Ah, era de noite. Umas sete da noite, ou oito. Não que importe ou que seja verdade. O tédio me mataria, não fosse que eu estava com a menina na cabeça. Acho que ela tinha ido dar uma volta, não conseguia achá-la. Perguntei pro motorista do meu ônibus se tinha visto uma menina de cabelo curto, preto, piercings nas orelhas e uma tatuagem debaixo da regata.

Perguntei pro segurança também, e depois pra senhora que tinha os gatos e o ex-marido incompetente. Ela disse que não, não tinha visto a menina, mas queria saber se eu sabia o que estava acontecendo pra os ônibus atrasarem tanto. Eu não sabia.

“Ah, não tem problema, chuchu. Mas que dá uma pena dos meus gatos…”. Eu pedi desculpas, disse que precisava ir ao banheiro. Era mentira, eu só não queria ouvir a história de novo, e também esperava achar a tal menina.

Andando pela rodoviária meio cheia, de noite, com aquelas luzes brancas e feias e tudo mais, e eu atrás de uma menina (de talvez uns 19 anos) que nunca tinha me visto e que eu tinha acabado de conhecer, mesmo que a gente não se conhecesse, na verdade, me perguntei o que eu diria quando finalmente a visse no meio das outras pessoas. Não demorou tanto assim pra que eu a achasse. Ela lá no meio de homens e mulheres mais velhos, sentada no banco com aqueles fones e a mochila no colo, prendendo o cabelo num rabo-de-cavalo. Eu realmente acho que ela tinha direito de ficar irritada com o ônibus saindo atrasado, ela parecia bem cansada. A alça da regata deu uma escorregada, e aí eu vi que a tatuagem era o número vinte e um em algarismos romanos. A tatuagem estava logo abaixo da clavícula, nem era tão difícil de ver, mas antes eu estava um pouco longe, e agora eu estava só procurando um lugar pra sentar, mas tinha gente dos dois lados dela. Uma mãe com uma criança no colo (aquela que tinha esperneado e agora comia um biscoito, provavelmente dado pela mãe só pra ela calar a boca), e do outro uma mulher lá com seus 30 anos, que não saía do telefone.

Eu sentei do lado da mulher com o telefone, e eu tenho certeza de que ela estava contando uma história muito interessante pra quem quer que estivesse do outro lado da linha, mas eu não entendi nada porque ela estava falando japonês, ou chinês, ou coreano. Eu só sei que era uma língua esquisita, e que ela tinha os olhos puxados, e isso parecia explicar muita coisa. Mas na verdade eu não estava nem aí, eu só queria que ela levantasse pra eu sentar do lado da menina, que conversava com aquela mãe enquanto a criança estava entretida com o biscoito, que ela chamava de bolacha, mas no fim dá no mesmo.

A mulher do telefone levantou, mas acabou que eu me senti meio idiota e fiquei onde estava. E a criança começou a ficar irritada e aí a mãe pediu desculpas e levantou também pra ir dar uma volta com ela, e a menina colocou os fones de novo no ouvido. Consegui dar uma espiada na tela do telefone que segurava. Não era Britney, era uma banda que eu não conhecia. E eu não consegui disfarçar a tempo, e ela percebeu que eu estava espiando. Virei a cara, e ela cruzou as pernas. Senti ela me encarar por um momento.

Eu achei que tinha sido má ideia e que era melhor eu levantar, mas ela tirou os fones e se inclinou na minha direção.

“Eu vi que você tá na fila pro Rio, né?”

Eu levei um segundo pra responder, porque fui pega de surpresa.

“Ah, eu?”

“Sim, quem mais? Ai, desculpa, fui grossa. Desculpa.”

Balancei a cabeça, não tinha problema.

“Tudo bem. Sim, eu sou de lá. To voltando de viagem, amanhã já volto pra faculdade, então…” Eu tenho esse problema de compartilhar informações não-requisitadas quando falo com estranhos, então calei a boca assim que percebi que estava falando demais e que ela não tinha perguntado mais do que se eu estava na fila do ônibus que ia pro Rio.

Ela disse que tinha família lá, mas que fazia anos desde que tinha visitado, e que gostava muito do mar. Ela tem esse “r” de paulista, e ela fala “bolacha”, e aparenta uns 19 anos, e ela não me conhecia, mas estava falando comigo sobre o mar que tanto gostava, e da cor da água nos dias de sol. E disse que gostava da cor do meu batom, porque era uma cor escura e ela gostava, e eu disse que gostava dos piercings dela e da tatuagem, e como não podia dizer que a tinha visto de longe e vindo aqui só pra vê-la de novo antes dos ônibus partirem – porque seria estranho – eu perguntei o que significava a tatuagem que ela tinha perto da clavícula.

Acabou que nessa hora os ônibus já estavam prontos pra sair e que as filas já estavam no lugar de novo e já estavam andando. Levantamos, mas eu tinha perguntado da tatuagem.

Ela disse que se chamava Luíza, e que a história era meio longa, mas que iria pro Rio em fevereiro e esperava que a gente se esbarrasse de novo pra ela me contar a história. Foi muito rápido, mas eu fui pra minha fila, ela foi pra dela. Quando eu estava pra subir no ônibus ela veio correndo, pediu desculpas pra alguém que ela acidentalmente empurrou no caminho, e me puxou pelo braço. Disse que a irmã dela tinha vinte e um. Que era pra irmã, e que tinha sido no Rio. E que ela tinha voltado pro enterro, que ela também era de lá, mas que era muito pequena quando foi morar em São Paulo. Ela respirou fundo, e ainda segurava meu braço. Eu não sabia o que dizer. O motorista disse que só faltava eu pro ônibus sair. Luíza pediu desculpas pra ele, e disse de novo que esperava que a gente se esbarrasse, e que ia me chamar pra sair quando viesse ao Rio, mas ela não pediu meu número e nem me deu o dela. Correu de volta pro seu ônibus, sem olhar pra trás. Eu fiquei ali parada, até o ônibus dela sair, e o motorista do meu buzinar impaciente. Subi, sentei no meu assento, meio atordoada – atordoada, com o meu “r” de carioca, que não era o “r” dela, “r” de cor do mar –, e o ônibus saiu para seguir viagem.

subsolo, nível 2: o limbo

Contra o tempo, Amelia corria. O tempo de alguém; talvez o tempo que tinha; o limite entre o ser e o nada, e o risco de faltar-lhe ar e acabar por se debater com as unhas na terra, a vida sendo arrancada de seu peito com violência fria.

Faz frio.

Corra, Amelia. As sombras avançam para arranhar seus calcanhares.

O frio sobe-lhe pelas veias, ameaçando paralisá-la, e devorá-la, e deixar que o ar congele em seus pulmões antes que possa morrer.

Amelia chega a um cômodo embebido em sombras.

Seu tempo ainda não se esgotou. Não podem tomá-la, ainda não podem devorá-la. As sombras retraem as garras para os cantos do quarto. Espreitam. Esperam. Tudo é tempo, tempo é tudo, e só o que tem Amelia…e um espelho coberto por um lençol, poucos metros à sua frente. A escuridão escorre pelas paredes; e o ar parece cortar sua garganta; e o ar corta sua pele como lâminas de gelo.

Amelia tem dedos longos de quem toca piano, mas o piano era de sua avó e ela só aprendera uma música, somente uma música, e com os mesmos dedos longos, finos, frios, puxa o lençol com a urgência de quem ouve a mesma melodia em eterna repetição. Sua pele arde, o frio arranha seu rosto, o gosto de sangue quente. Se morresse – se fosse deixada para morrer –, sabia que agonizaria até que as sombras não a quisessem mais, ou até que encontrassem uma nova vítima no corredor longo, estreito do andar de cima – ou deveria dizer do andar de baixo?

A poeira, e o frio, e o ar que começa a lhe faltar.

E um espelho

.

..

Nas esquinas do fim do mundo –

trovões; tempestades,

vento e chuva vendem almas:

desafortunados aventureiros;

pastores e políticos, todos corruptos;

inocentes.

Ao último que restou reservou deus a companhia de sua sombra,

sentença pior do que a morte e a certeza de que o paraíso jamais existiu.

sininhos, sininhos

A fragilidade da vida que está subentendida no bater de asas de uma borboleta; delicado, cintila como magia

e a menina que a segue por entre os carros em uma avenida –

uma borboleta, a poucas horas de pousar e se deixar morrer, valsa com a brisa para longe do asfalto – quente, áspero

e uma mão frágil que quis caçar o pó das fadas pelos labirintos de concreto

céu baixo

O que me lembra de algo que esqueci há muito tempo.

Todo o trabalho que tem o floricultor de amar as plantas e deixar-se morrer a cada caule cortado para poder viver na cidade. Regava os jardins com lágrimas dos olhos, uma lua no céu ao fim de tarde, enquanto em outro campo pousa uma borboleta em pétalas de jasmim pouco antes da tempestade.

Contou as horas numa tarde de verão. Fincou os pés no barro do fundo do rio, como se fosse levá-la, e não somente correr livre para tornar-se ondas de mar.

E foi caçar borboletas, que ouviu dizer que chamam a chuva com o balanço das asas. Aqui não chove há mais de mês, a mãe não pode abrir a loja com as rosas mortas, e a cidade não tem amor para espalhar.

Tinha em casa um borboletário. Contava as borboletas para esperar a chuva. Pares de asas cintilavam e suas sombras miúdas eram uma valsa muda.

Ao estrondo de um trovão, correu para a rua, exceto que não trouxe água abaixo, mas tomou a luz da cidade pelos cabos para rasgar o céu.

O que me lembra que havia esquecido – os rugidos das nuvens negras assustaram-na, e havia as borboletas. Disparou outra vez casa adentro, as mãos pelas paredes. Trêmula, escancarou a portinhola do borboletário, contando dez segundos surdos no vazio escuro do quarto. Correu para fora, a tempo de ver um lampejo violeta no céu e uma espiral de asas bater contra o vento.

Sentiu chuva em seus ombros e estendeu as mãos para abrigá-la.

Chovia. Sobre a palma da mão direita repousa uma borboleta de asas azuis.